Esta foi a constatação da Nous SenseMaking, consultoria especializada em Inteligência e Estratégia, ao avaliar os empregados do país com mestrado e doutorado. Essa abordagem se torna importante e relevante ao considerar a quantidade de mestres e doutores como uma das variáveis utilizadas para mensurar a capacidade de inovação de uma empresa ou segmento.

Em qualquer contexto a inovação é um driver capaz de acelerar, dentre outros, o processo de abertura de novos mercados, aperfeiçoamento de processos, produtos e tecnologias. Porém, para isso acontecer é necessário ter profissionais capacitados e envolvidos ou com capacidade de transitar no âmbito da Pesquisa e Desenvolvimento. Para esse estudo a equipe da Nous SenseMaking utilizou os dados de empregados da RAIS, do Ministério do Trabalho, de 2007 a 2014, sendo este o último ano com dados disponíveis.

A equipe da Nous SenseMaking identificou que 75,8% dos mestres e doutores empregados no Brasil estão concentrados nos segmentos de Educação e Administração Pública, sendo que este último tem a maior concentração desses profissionais. Ao separar estes dois setores dos demais, se destacam nove segmentos com maior quantidade de mestres e doutores, sendo eles: 1) Pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências físicas e naturais; 2) Atividades de apoio à gestão de saúde; 3) Atividades de atendimento hospitalar; 4) Atividades de organizações associativas não especificadas; 5) Atividades de associações de defesa de direitos sociais; 6) Captação, tratamento e distribuição de água; 7) Intermediação monetária – depósitos à vista; 8) Fabricação de produtos derivados do petróleo; e 9) Atividades dos serviços de tecnologia da informação. Com destaque para o segmento de Fabricação de produtos derivados de petróleo, que apresentou uma taxa de crescimento de 89% ao ano, no número de empregados com mestrado e doutorado.

Os dados do estudo também mostraram que ao longo dos últimos sete anos as mulheres assumiram um papel de destaque nesse âmbito, sendo que entre 2010 e 2014, somavam 53% do total desses empregados. Por outro lado, mesmo tendo se tornado maioria, as mulheres ganham menos do que os homens. Ao analisar o salário médio por gênero, homens com mestrado e doutorado ganharam 44% a mais do que as mulheres em 2014.

Mestres e doutores

Fonte: Nous SenseMaking, a partir dos dados da RAIS/MTE

Os dados analisados, mesmo que não reflitam a completude da problemática da inovação no país, nos trazem algumas reflexões importantes:

  • As boas notícias referentes ao maior número de mulheres com mestrado e doutorado empregadas no Brasil, continuam a refletir uma diferença histórica e injustificável quanto à questão salarial relativa ao gênero.
  • É possível ver de maneira clara através do gráfico acima que o número de mulheres com mestrado e doutorado empregadas no Brasil vem percorrendo nos últimos sete anos uma trajetória ascendente, enquanto o número de homens segue uma trajetória contrária, o que nos permite inferir, que uma proporção considerável das inovações no Brasil terão o direcionamento e/ou envolvimento das mulheres, reforçando a importância do seu papel nesse processo.
  • Por meio desses dados pode-se evidenciar ainda que uma parte considerável da capacidade inovadora do país está concentrada nos meios acadêmicos e no setor público, com grande destaque para esse último, e não no setor produtivo, ao contrário do cenário encontrado nos países desenvolvidos. Temos aqui um problema que trará um impacto negativo no crescimento do país no longo prazo, já que no Brasil, o setor produtivo, gerador de emprego e impostos, responsável pela manutenção de toda a estrutura da administração pública, parece exercer pouca atratividade junto ao extrato de mão-de-obra mais qualificado do país. O futuro parece delinear a figura de um gigante sustentado por pernas muito frágeis, que poderá não conseguir dar sustentação a todo o peso que precisa carregar.
  • Os dados também revelam uma oportunidade ao avaliar por meio da quantidade de mestres e doutores de uma atividade produtiva se esta tem obtido ganhos de produtividade e diferenciais competitivos. A justificativa é baseada em vários estudos que comprovam o ganho de produtividade com o aumento dos anos de estudos. Com mais mestres e doutores envolvidos nos segmentos produtivos a tendência é que estes segmentos tenham incorrido em ganhos de performance, com a melhora de processos, pesquisa e desenvolvimento, além da identificação de novas oportunidades de negócios. Em um contexto de crise, principalmente, esses profissionais deveriam se configurar como um diferencial competitivo para os diversos segmentos econômicos.

Que o espírito empreendedor sobrepuje as incertezas e vicissitudes do ambiente de negócios e inovação no Brasil!